Debate das autárquicas na SIC- Lisboa

CandidatosGostei do debate na SIC dos cinco candidates à Câmara de Lisboa. Desde logo foi um debate cordato em que cada um teve oportunidade de explicar ao que vinha. Quatro dos candidatos jogaram “de dentro” uma vez que têm experiência autárquica, um como presidente [Fernando Medina] os outros três como membros da Assembleia Municipal [Teresa Leal de Carvalho, João Ferreira e Ricardo Robles, respectivamente pelo PSD, a CDU e o BE]. Apenas Assunção Cristas jogou “por fora”, não tendo experiência autárquica mas tendo [ao contrário dos outros quatro, experiência governativa e visão das interdependências local-nacional]. Medina estava na pior posição pois tinha que defender os 10 anos de presidência do PS da edilidade. Anunciou muitos projectos mas foi naturalmente atacado pelo argumento [se estão há 10 anos `a frente da autarquia porque não o fizeram].  O diagnóstico dos problemas foi correcto: habitação, vias de comunicação, impacto do turismo na vida da cidade. Medina foi fantasioso na forma como veio propor uma oferta de casas de renda económica para os estratos da população mais carenciada quando essa disponibilidade depende das políticas governamentais e da mudança das leis do arrendamento [e não da gestão da CML]. Como deixou transparecer que a medida de restrição na entrada de novas viaturas em Lisboa passa pelo aumento de parques de estacionamento [e do preço de estacionamento] e pela melhoria do sistema de transportes públicos de superfície. Ou seja o encaixe financeiro para as prioridades da Câmara irá passar pela subida das receitas da EMEL e pelo aumento do Imposto de Turismo. A transferência da gestão da CARRIS para a Câmara – uma das bandeiras do governo socialista – não parece resolver problema algum, porque os fluxos de trânsito nas horas de ponta vão continuar e os autocarros estão condicionados pela fluidez geral do trânsito. Apesar de apoiado pela CDU e BE, não ficou claro o que é os lisboetas ganham com isso. Reforça-se o domínio dos sindicatos da CGTP sobre o pessoal da CARRIS [moeda de troca para PCP e BE] e os lisboetas vão voltar ao inferno de greve “semana sim, semana não”. Há áreas em que o Estado não tem a mínima propensão gestionária e esta é uma delas. Também sobre o boom turístico que Medina disse apadrinhar não deu explicações satisfatórias de como vai conciliar a manutenção desse fluxo com a preservação da maneira de viver dos bairros tradicionais. Aliás alguém dizia, “primeiro as pessoas queixaram-se dos bairros antigos estarem degradados por não terem turistas, agora que os têm dizem que há em demasia”. A compra de apartamentos de gente que vem de fora [dos bairros] parece uma inevitabilidade e as novas gerações que compram ali casa têm pouco a ver com a população “popular” dos bairros de Lisboa [ligadas a profissões que estão a desaparecer] . É gente da classe média que tem um poder de compra superior à população originária desses bairros e essa é uma questão de facto. A alternativa é apenas manter as casas abandonadas.

Dos outros candidatos fiquei com a ideia que João Ferreira da CDU era o melhor preparado de todos pelo conhecimento dos dossiers. Fez intervenções com sentido e proporção, assumindo um modelo que é o do desenvolvimento urbano dos anos 1960 e 1970, uma gestão centralizada com os gabinetes de planeamento urbano a fixarem as “grandes opções”. Mas foi coerente na sua defesa, com financiamento público exclusivo, controlo das finalidades do arrendamento pela CML, limitação da acção do mercado imobiliário na fixação dos preços [“Madona factor”]. Gostei menos de Ricardo Robles que me pareceu estar a desempenhar um papel que não era o seu, o que terá a ver com a opção do BE de não apoiar aquele que foi o seu vereador na Câmara durante anos. Desastrosa a actuação de Teresa Leal de Carvalho do PSD no debate. No essencial esteve ali para defender as acções do anterior governo do PSD-PP e nada para apresentar o programa do PSD para a gestão da Câmara. Tem um estilo de intervenção política aos solavancos, intervindo em catadupa, interrompendo sistematicamente quem está a falar. É agressiva, truculenta e pouco clara na mensagem politica. Se tinha duvidas quanto à escolha da candidata do PSD esclareci-as neste debate. Deixo para o fim Assunção Cristas que me pareceu bem preparada, incisiva na forma como veiculou as suas ideias e o programa do CDS, cordata nas críticas a Medina [e incisiva], respeitosa dos outros. Passou a visão de uma gestão liberal da cidade e dos seus problemas com que me identifico, onde há um papel para o mercado, para as unidades hoteleiras, paras as imobiliárias, para os turistas que visitam a cidade [e são os seus melhores embaixadores], para as comunidades tradicionais de bairro. A imagem cosmopolita da cidade que passou tem a ver com o que olho noutras cidades abertas como Barcelona, Roma, Florença, Singapura, Hong Kong onde há um casamento feliz entre a modernidade a tradição. Poderia ter sido mais proactiva nas ideias mas escolheu uma postura mais recuada que a terá beneficiado, acho. Em conclusão, Medina joga com armas fortes – o predomínio dos votantes de esquerda na capital, a ligação ao governo/aparelho do PS e a António Costa em particular, a cumplicidade das associações e do aparelho autárquico. Mas não terá maioria absoluta. Fiquei convencido que o PS ficará com a presidência mas perderá em número de vereadores. A CDU irá ter uma boa votação, tem um excelente político como candidato [sobre que auguro voos mais altos no futuro] e Assunção Cristas também. Sabe colocar-se muito bem ao centro, namorando o eleitorado tradicional da direita que se lembra do Eng. Abecassis e de como transformou a cidade. Fiquei convencido que o PSD irá ter um mau resultado por causa de todo o processo de escolha da candidata. Não se espera de uma candidata que faça a “defesa de barra” do governo que caiu porque não estamos em eleições legislativas mas que apresente qual o seu projecto para a Câmara. Teresa Leal de Carvalho não o percebeu ou o seu staff de campanha não o entende. Más notícias para Pedro Passos Coelho em Lisboa. Vamos ter pois uma votação muito pulverizada nos candidatos, o que irá levar à negociação de alianças pós-eleitorais.  Chego a Lisboa a 2 de Outubro e já não votarei portanto.

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