A complacência é o nosso pior inimigo

Não partilho o ponto de vista da minha colega Faranaz Keshavjee. Houve um fenómeno sociológico que importaria reflectir sem precipitações e com realismo. Quando temos 17% do eleitorado latino, 11% do eleitorado negro e mais uma quota significativa dos eleitores muçulmanos a votar Donald Trump algo aconteceu. Não poderemos agarrar-nos `a ideia que quem vota esquerda [quer dizer ‘liberal’ nos Estados Unidos] é inteligente e arguto e quem vota direita [quer dizer republicanos] é estúpido e bimbo. O eleitorado, os eleitorados, não funcionam assim e as pessoas no segredo da cabine de voto decidem por razões que as determinam e não pela propaganda. Não há aqui uma luta entre o bem e o mal, há apenas escolhas políticas. E mesmo essas transitórias [nada impede que daqui a 4 anos seja eleito um presidente democrata]. Uma das generalizações mais perigosas é pensar que as pessoas ou votam por género, ou votam por raça, ou votam por etnia ou escolha sexual. Isso não acontece como se viu. As pessoas conseguem pôr de lado essas ‘lealdades grupais‘ para na altura da votação escolherem quem, em sua valoração, deve desempenhar um determinado cargo publico. Percebi-o dias antes da votação quando li no Washington Post uma reportagem sobre seis mulheres que anunciavam votar em Trump. Não eram mulheres da alta burguesia, das tontas que fazem capas nas revistas cor-de-rosa, mas trabalhadoras, donas de casa, funcionárias publicas. Uma delas dizia uma coisa curiosa: Trump disse que gostava de agarrar os genitais femininos, ela não se importava de fazer o mesmo aos homens que apreciava. Num dos comentários na TDM, a seguir aos debates eleitorais, disse que as pessoas estavam equivocadas e que Trump não era nada burro ou bronco. Tudo, o discurso, a pose, o facies, fazia parte de uma estratégia politica bem pensada e dirigido a um eleitorado preciso. Este testemunho de uma muçulmana americana vai nessa linha. Porventura radicada e com o passaporte americano não quer que a entrada pouco criteriosa de imigrantes vindos de países muçulmanos ponha em causa a protecção que a sua minoria tem nos Estados Unidos. Embora com inúmeras imperfeições, têm-na. À entrada das faculdades há quotas para as minorias e as universidades são obrigadas a admitir uma certa percentagem de latinos, negros e outras minorias. O mesmo se passa na estrutura da segurança social quer em resultado de políticas federais, quer da acção das associações muçulmanas, cuja eficácia nos Estados Unidos é significativa. Como em Inglaterra. Temos deixar de ser complacentes com erros de análise e perceber que sob o diáfono véu da propaganda ‘liberal’ há uma realidade que se movimenta e flui para além dos nossos preconceitos. Quer dizer que penso que a presidência de Donald Trump será magnifica e sem perigos? Não não estou a dizer isso. Estou apenas a dizer que temos de compreender quando as pessoas tomam decisões que nos parecem irracionais e estúpidas porque elas não vão de acordo com o que pessoalmente pensamos, que elas podem ter tanta razão quanto nós. Chama-se isso tolerânciahttps://www.washingtonpost.com/…/im-a-muslim-a-woman-and-…/…

This is my confession — and explanation.
WASHINGTONPOST.COM
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