Porque é importante o debate das ideias

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Pode parecer que o debate acalorado que vai nas redes sociais depois das declarações de Mariana Mortágua é coisa de lana caprina, uma tempestade num copo de água. Se olharmos aos termos é-o. Mas se olharmos à questão de fundo – em que modelo de sociedade queremos viver – não o é.

As revoluções dos séculos XIX e XX fizeram-se sempre à volta das ideias. Sem os filósofos liberais não teria havido um movimento liberal na Europa que depôs as monarquias do direito real no continente. Sem Rousseau o socialismo utópico não teria nascido e Marx, muito provavelmente, não teria passado de um panfletário de um desconhecido jornal prussiano radical. Sem Marx não teria havido as revoluções socialistas na Rússia, a sovietização da Europa de Leste, a revolução socialista na China e as ‘guerras de libertação nacional’no Vietname ou em Cuba. Sem a publicação do livro Mein Kampf, Hitler nunca teria vencido as eleições para o Bundestag e com isso levado o Partido nazi ao poder na Alemanha. Os exemplos podiam multiplicar-se quase até ao infinito.

As ideias movem, portanto, montanhas e instituições e derrubam governos e líderes. Por isso, é preciso ter cuidado com elas e defrontar com valentia as ideias que em vez de progresso trazem retrocesso, em vez de liberdade económica e política colocam os povos no colete de forças do colectivismo, em vez de pluaralismo empurram-nos para o monolitismo político e para a esclerose democrática.

As ideias de Mariana Mortágua, malgrado a sua aparência ‘fresca’ são velhas, tiradas do manual amarelecido do marxismo totalitário, como uma espécie de ajuste de contas com o ‘neo-liberalismo’, eufemismo com que a extrema-esquerda combate a economia de mercado, a livre iniciativa, a livre circulação dos capitais, serviços e pessoas e o princípio da acumulação da riqueza que resulta do trabalho, da poupança e do seu reinvestimento. Lembrei-me disso há dias quando a propósito do ‘imposto sobre as fortunas’ badalado na imprensa recordei as palavras duras de Karl Marx insertas no Manifesto Comunista quanto à geração de mais-valias e à acumulação do capital baseada – na sua visão – na apropriação gratuita de horas de trabalho pelos capitalistas. A métrica é a mesma como os pressupostos.

Tal raciocínio simplista ignora várias coisas: que os factores de produção que importam para a economia já não são apenas o trabalho, o capital e a terra [como Marx o arguia] mas são ainda inovação, criatividade, conhecimento, ciência. Naturalmente há uma razão para isso: a crítica de Marx ao capitalismo foi desenvolvida no início do capitalismo, quando a segmentação de classes era impiedosa e o modelo industrial era baseado na indústria manufactureira, no excesso de mão-de-obra, nos baixos salários e na ausência de condições dignas para os trabalhadores industriais. O trabalho intelectual, o conhecimento advindo do processo educativo e das qualificações, o investimento privado não foi tomado em conta porque estava na sua infância [ou era inexistente]. Precisaríamos de duas guerras mundiais, de uma profunda transformação tecnológica e cientifica que mudou absolutamente as regras da nossa sociedade para que esses outros factores de geração de riqueza pudessem ser tidos em consideração. Ao tempo, Marx descansava na sua tumba no cemitério de Pierre Lachaise há umas boas décadas.

É este raciocínio que Mariana Mortágua é incapaz de fazer por teimosia ideológica, afincando-se a uma velha receita que fez o seu tempo na Quarta Internacional, mas que é hoje um caco histórico, sem peso representativo na sociedade europeia, em Portugal. Trata-se de uma visão simplista que diz muito da intervenção do Bloco de Esquerda na sociedade. De um lado o proletariado urbano, os pequenos proprietários rurais, o funcionalismo público, os pequenos pensionistas, os trabalhadores por conta de outrem menos qualificados, do outro a média burguesia, os banqueiros, os chefes de empresas, os investidores, os titulares de propriedades, os senhorios, os intelectuais qualificados. É uma visão a preto e branco de um país que já não existe.

É como se voltássemos atrás ao tempo das varinas e dos cacelheiros no Tejo, dos pescadores puxando a braço os barcos pelas  praias do litoral de Portugal depois da faina no mar, um tempo de xailes negros e gente muito pobre arrastando-se num dia-a-dia penoso, feito de provas e dificuldades, sem futuro aparente. Um tempo cinzento sem Europa e contra ela.

 

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