Revolução nas eleições em Hong Kong

Enorme revolução nas eleições legislativas em Hong Kong com um recorde de votantes representando 58% do universo eleitoral e um novo bloco de localists (6) que tendo participado no movimento Occupy Central e noutros movimentos populares não tinham representação no Legco. Embora se mantenha a maioria alinhada com Pequim, vários pesos pesados do Legco perderam o seu assento (Dominic Lee do Partido Liberal por exemplo). Duas novas forças politicas ganham representação e passam do combate político nas ruas para o anfiteatro parlamentar: o Demosisto Party e o Youngspiration Party. Integram a nova área politica que se designa habitualmente por ‘indigenous’ ou seja os que já nasceram na ilha, os locais.
Os grandes derrotados são os pan-democratas dos United Democrats, do Civic Party, do Labour Party, do People Power, People’s Party, da Liga dos Social-Democrats, dos Neo-Democrats. Todos eles perderam representação e saiem de cena depois de ocuparem o centro das atenções desde 1987, quando foi assinada a Declaração Conjunta. Verificou-se um cansaço do eleitorado com velhas políticas [e velhos tiques] de oposição ao Chefe de Executivo, uma colagem (que deixou de fazer sentido) aos movimentos de oposição aos comunistas no continente. O 4 de Junho foi há muito e esta nova geração não tem qualquer memória desse período histórico e não se galvaniza pela celebração de algo que acha não lhe dizer respeito [nem na China as novas gerações se identificam com esse tempo histórico]. As suas fronteiras de intervenção política são Hong Kong e apenas Hong Kong. A Lei Básica é para eles um documento datado, ultrapassado. A autodeterminação de Hong Kong é o seu objectivo primeiro. Irrealista, dizem as forças pro-Pequim. O direito de auto-determinação é um dos princípios do Direito Internacional que garante às pessoas de uma determinada nação o direito de se autogovernarem e se constituirem como comunidade política. É algo consagrado no acervo das resoluções das Nações Unidas e que não prescreveu. Qualquer comunidade que tenha consciência de ser nação pode invocá-lo. O povo de Hong Kong tem uma consciência de comunidade diferenciada e separada do corpo da população do continente. Há razões históricas e sociológicas para isso. E há precedentes. Desde logo, Taiwan onde ocorre exactamente o mesmo fenómeno de separação sociológica do país donde vieram os primeiros líderes da ilha. Depois, Singapura que abandonou a federação malaia e se constituiu em nação independente pela mão de Lee Kwan Yew. Ou seja há precedentes históricos e étnicos e nenhuma razão económica ou social obvia a que Hong Kong possa funcionar como ente político soberano. Há razões políticas: o regime comunista na China, a visão unitária e soberanista da elite chinesa, o seu desagrado com as autonomias. Mas há uma mudança geracional incontornável. Em 2047, no fim do termo da Lei Básica de Hong Kong, Xi Jingping e os seus aliados terão 93/94 anos. Possivelmente já não estarão vivos. Os líderes da China então não terão também qualquer memória da guerra civil, da Revolução Cultural, de Mao Zedong ou Deng Xiao Ping. Para eles serão figuras de uma história remota. A geração de hong kongers que hoje tem 24/25 anos terá 50 anos nessa altura e será esse o tempo para dirigirem o que Hong Kong poderá ser nas décadas adiante. Pequim quererá a fusão e a desestruturação do sistema capitalista de Hong Kong, mas nesse dia, Hong Kong desaparecerá do mapa e nenhuma outra cidade chinesa terá a capacidade de ser a grande metrópole financeira e plataforma de ligação ao mundo que Hong Kong é. Nenhuma [mesmo Xangai] tem o know-how, a cultura empresarial, o sentido de risco e de negócio que Hong Kong tem. Duvido que em 30 anos o consigam conquistar.

Arnaldo Goncalves's photo.
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2 respostas a Revolução nas eleições em Hong Kong

  1. Pequim já veio dizer que não quer retórica independentista ou semelhante.
    Aguentem que vão ouvir muitas vezes esses discursos!

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