Leituras e escrita no torpor do Verão

freeimages.co.uk workplace images

Uso as lentas semanas de Agosto para pôr em dia leituras que andavam empilhadas na mesa de trabalho, à espera de melhor altura e, por vezes, da disposição. Outras que se me impõem, antecipando as obrigações do mestrado que recomeça, outra vez, em Outubro e em que boa hora me lembrei de tirar. Criei o esquema de dedicar algum tempo diário, a cada um dos domínios, não só porque o espírito se exaura nos mesmos temas como a frescura do raciocínio já não é a mesma. Normalmente no dia seguinte, há um aspecto da leitura da véspera que se me sobressai e que provoca o quási gesto reflexivo de um sublinhado na página ou de uma nota de chamada à margem do texto.

Não gosto de sublinhar os livros a ‘textliner’. Acho que isso os destrói, que os marteriza mas habituei-me à nota lateral a lápis, talvez reminiscência dos velhos manuais da faculdade de direito mas que ajudam, quem lê muito, a revisitar dias, ou semanas depois, o que é essencial num texto. Gosto de citações e elas têm-me ajudado ao longo dos anos na escrita das crónicas que se tornaram uma espécie de vício. Sim, a escrita é um vicio, idêntico ao tabaco ou ao copo de wiskey. Parece que não nos tranquilizamos enquando os pensamentos que vão surgindo a catadupla não passam ao papel.

Por treino deixei-me de inquietar com o tema da crónica seguinte como acontecia anos atrás. Anoto a periodicidade nesse instrumento moderno que é o calendário do Outlook e infalivelmente surge com a antecipação que programámos o alerta sonoro. Ao caso, hoje, dia 18 de Agosto, sei que amanhã é  dia da feitura da crónica para o Hoje Macau. Nunca calculei bem mas acho que há 20 anos que escrevo para os jornais. O meu primeiro artigo saiu no Comércio de Macau a convite de um bom amigo que a morte já levou e que era dos espíritos mais argutos e sagazes que conheci na minha primeira estada em Macau. Depois disso foi o Diário Económico, o Público, o Semanário Económico, o Tribuna de Macau e agora o Hoje Macau. Os convites foram surgindo um pouco ao acaso, outras vezes porque os directores conheciam a minha ligação a Macau e acharam piada a um olhar em Lisboa sobre a realidade distante.

Guardo os artigos, religiosamente, em duas pastas com bolsetas de plástico onde o recorte mergulha quase sem esforço, como deito a cabeça todas as noites na almofada. Sem barulho ou resistência. Vem-me à mente, por vezes, o que fazer com eles. Talvez deixar para os filhos para quando já não estiver no mundo dos vivos decidirem o que fazer. Apenas um tempo me tentei a passar a livro algumas das crónicas e isso foi possível pela paciência de dois amigos: o Luis Ortet da editora Delta Edições de Macau e a Maria João Leal, ex-jornalista do Ponto Final e amiga de tantos anos. Não sei talvez um dia destes regresse a um segundo revisitar desses textos.

disciples

Descobri o gosto pelos estudos de religião aos 60 anos. Eu que sou laico e que nunca na vida tive qualquer apelo de religiosidade ou de transcendência. Acho que o gosto de a estudar (e perceber) se alavancou na incompreensão de notícias sobre o confronto das escolhas religiosas, sobre a verdade absolutizada, sobre a minha profunda ignorância sobre o Islão e o mundo muçulmano. Uma ignorância feita, ao mesmo tempo, de intranquilidade e atracção, um misto rejeição e atracção. Tem-me sabido bem porque tenho agora o espírito mais livre para olhar para ela com outra atenção que não seria possível, há 40 anos atrás, quando a escolástica positivista do marxismo dava respostas para todas as dúvidas e todas as ansiedade. Como toda a escolástica revelou-se árida, artificial, colada ao literalismo dos textos mas incapaz de explicar o processo de mudança e sobretudo as embaraçosas contradições entre a teoria dos slogans e a prática.

Tem sido uma redescoberta, uma coisa estranha como se dentro da minha cabeça, no cerne dos meus genes, existisse uma memória indelével, intactável, que soava como uma melopeia esquecida, à espera de ser despertada. Há um manifesto apelo transcendental no ser humano, um apelo de fuga do artificialismo da vida moderna que se é, ao primeiro toque, satisfatório se torna, depois, exangue. É um apelo subjectivo, numa linguagem que se nos torna própria, num ritmo que somos nós que escolhemos, sem gurus, nem método, nem guia, como na homónima canção do Van Morrison.  Voltamos se calhar atrás, ao tempo da meninice, no debitar dos porquês?

Encontrei na Universidade de Trinity Saint David, no País de Gales, o parceiro, o encosto de cabeça desta viagem tranquila mas saborosa às origens da ‘divinity’. Uma viagem em que não me é requerida conversão nem seguidismo dogmático mas que faço por puro deleite, para saber mais, para descobrir o mundo da fé e da espiritualidade. E, talvez, descobrir o meu ‘eu’ mais profundo. Tem sido curioso verificar que há um mundo de académicos e investigadores que tem dedicado, páginas sobre páginas, a tentar perceber o fenómeno e as suas decorrências e isso possa acontecer num mundo profano fora dos muros das Igrejas, das Congregações e das Obediências e dos seus exercícios de genuflexão ou mortificação.

Não parece que a religião seja uma apetência inata ao ser humano, como defendem os teólogos; nem que seja um opiácio, como disse Marx; nem a prática dos ignorantes e dos iletrados como disseram os iluministas.  É um questionar sobre as nossas origens e os nossos mitos identitários, acreditemos ou não neles como manifestação da nossa humanidade e diferença de seres racionais.  Mas se gente tão diferente, em tempos e locais tão díspares, sentiu a necessidade de passar a escrito esse apelo do divino deve haver uma razão para isso, uma lógica com que nos sentimos confortáveis ou apenas inapelavelmente atraídos. Talvez seja um apelo subreptício da nossa contextualidade. E os apelos seguem-se ou resistem-se. O nosso livre-arbítrio facilita essa margem de liberdade.

Talvez estejamos já cansados de nos vermos sozinhos na imensidão do cosmos e queiramos perceber o que fazemos aqui. Se há propósito maior?

Anúncios
Esta entrada foi publicada em Escrita, Igrejas, Jornais, Leitura, Livros, Religião. ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s