A escrita e ser-se intelectual

Escrita

O exercicio da escrita é um exercício solitário de comunicação. Curiosamente com a senioridade sinto-me cada vez mais confortável a escrever para mim sem pensar o que os outros gostariam de ler. Porventura porque o mundo hipocritizou-se (se já não o era) e o que se vê lá fora pouco mais cria que um sentimento de recusa ou repulsa interior (próximo do nojo). Não é só o peso das convenções – que com a ditadura da esquerda no pensamento intetectual ganhou novas vestes, não mudando de substancia – mas porque há pouco a aprender. Há muito não sinto aquele estado de fascinação intelectual pelo que oiço ou leio e que me recordo me ter posto na rota dos estudos de ciências sociais e depois na escrita e no ensaio no começo da idade adulta. Não é só a queda dos ídolos (que a minha coluna no Hoje Macau crescentemente retrata) mas a absoluta aridez de heróis (ou amigos) novos que mereçam sequer o incómodo da tentativa. Pouco há que aprender e os interlocutores são ainda mais pobres e rarefeitos do que em outros tempos de cepticismo com as virtudes do pensamento burguês e judaico-cristão. A minha inconsequente experiência com o marxismo deixou-me quase incólume quanto aos dogmatismos sejam quais forem as origens e as vestes que se revestem. Embora me tenha dado a objectividade e o realismo de ser capaz de desconstruir o discurso intelectual, do crítico furibundo, do analista demolidor e habitualmente malcriado que recebe a parcela do ‘dote’ ou dos ‘despojos’ cobardemente nas salas do fundo. Alguém que não é mais que um corrupto em termos de valores morais que o irmana aos que gosta de caluniar e diabolizar. Talvez por isso nos últimos cinco anos, mais coisa menos coisa, me tenha apercebido de quanto gratuito é o ataque que nós os cronistas procuramos desfechar em alvos aparentemente visíveis e ostensivos. Porque há um efeito de reflexo imbecilizante para os lados que nos leva a arrependermo-nos, muitas vezes, de termos ido longe demais e gratuitamente. Por isso não me vejo (nem nunca vi) como jornalista, porque este não tem de passar pelo crivo da coerência nas opiniões expendidas. Muitas vezes contradiz hoje o que escreveu ontem, sem que isso lhe tire o sono e a certeza no passe, o que não acontece comigo. Procuro sempre revisitar opiniões anteriores quando a precipitação de análise ou a pouca consistência de informação me levaram a opiniões invaciláveis sobre eventos e pessoas. O apoio à guerra do Iraque, a adesão ao discurso democratista de George W. Bush ou a premonição da política nova de Barack Obama foram apreciações sobre que manifestamente me equivoquei e que não tenho qualquer problema em assumir o erro. Acho que o bom senso dita que reconheçamos que não somos profetas, nem temos o dom da absoluta premonição, embora – uns mais que outros – possamos antecipar desenvolvimentos que a rapidez e o soundbyte do actual oculta. Naturalmente há o questionar do ‘ter valido a pena’ ter escrito ou dado a entrevista x ou y e a interrogação se alguma coisa ficará disso. É uma pergunta que não encontrei resposta [até aqui] e talvez seja mais prudente conceder que não a encontrarei. Os livros ficam após publicação nas bibliotecas (ou nas colecções pessoais) até que um dia alguém os desfolhe atraído pelo tema, pela encadernação ou ou pelo título. Se for esse o caso. Acho que essa será sempre a vacilação do escritor e do ensaísta, categoria última em que me sinto mais confortável. Interrogamos sobretudo. Num sentido socrático, confuciano, procurando que isso leve à inquietação dos outros. Acho que ser intelectual é isso: despertar inquietações, fazer pensar, abanar convicções e verdades absolutas.

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