Maria vai com as outras

Carneiros
É da idade mas cada vez menos me sinto capaz de alinhar na carneirada. Não é que não seja gregário, sou-o mas cada vez mais enoja-me a dimensão da maralha, do faz como os outros para triunfar ou ser bem visto. Ponto importante é que já vivi coisas que outros estão a viver. Por exemplo Hong Kong e a manifs muito ‘prafrentex’ reveladas como o melhor do burgo e a fina flor da luta democrática. Há muita gente voluntariosa a participar na luta mas há pescadores de água turva. Lembro-me há 40 anos; cada vez mais. Também então havia alguns a dar o ‘coirão’ pela luta revolucionária e uns tantos a ‘picar’ para que se fosse mais radical que radical. Tive há 40 anos um grande amigo que morreu numa coisa destas. Chamava-se Alexandrino de Sousa e era militante da FEML (como eu). Num dia numa colagem de cartazes envolveu-se em troca de razões com uma ‘brigada’ da UDP. Mandaram-no ao rio Tejo e morreu afogado entre as colunas no Cais das Colunas. Conta a história que a brigada da UDP não deixou ninguém aproximar-se para salvar o jovem Alexandrino. A brigada da FEML era dirigida pela então namorada de Durão Barroso, depois militante do PCP e depois delegada do Ministério Público na margem sul. Sempre fiquei convencido que tudo aconteceu por negligência e esquizofrenia radicalóide da Teresa Almeida, a dita cuja ex-namorada. No julgamento que se seguiu não vingou a tese do assassínio, arguido pelo MRPP e tudo ficou como um triste acidente. Morreu um jovem de enormes qualidades, o melhor de nós, numa coisa estúpida.
Essa experiência -e outras que se seguiram – levaram-me a desconfiar do radicalismo estéril, do extremismo vanglorioso e rufião dos valentes que picam para a porrada mas quando chega a altura fogem e desaparecem.
Temo pelos jovens que se confrontam nos fins de tarde, nos fins de semana com a policia e com os rufiões das triades que cada vez têm um protagonismo central nos choques entre os partidários do Occupy Central e os anti-Occupy Central. Antes do 25 de Abril, nas manifestações da esquerda estudantil contra a ditadura, havia uns figurantes que eram mais rufiões que os demais; os primeiros a atirar pedras contras as montras dos bancos e contra a polícia de choque e os primeiros a fugir dela. Para trás ficavam os mais lentos, as mulheres, os que levavam as bandeiras e os cartazes e eram moídos de pancada pela polícia de choque mas também pelos PIDE à civil. Desconfiávamos que eram também da PIDE mas nunca o conseguimos provar. Os ficheiros dos PIDEs e dos informadores foram roubados, propositadamente, das instalações da Comissão de Extinção da PIDE-DGS por gente que se soube próxima do PCP e queria tapar as pistas vergonhosas de alguns dos mais conhecidos dirigentes do Comité Central do PCP. Os ficheiros foram levados para Moscovo por gente da confiança de Alvaro Cunhal e não sei se lá estão ou foram eliminados.
Mário Soares sempre fez gáudio em que um sinal da reconciliação nacional foi o facto de não ter havido mortes significativas no pós-revolução, no facto dos PIDEs nunca terem sido julgados pelos seus crimes, e os nomes dos informadores da PIDE postos a nu. Sempre achei que esse esquecimento das culpas do passado, tão português, foi um erro, um erro crasso. 40 anos depois vejo-me a manter a mesma opinião. Nunca fazemos o julgamento da história, nem o balanço dos erros que cometemos no nosso percurso histórico. Diz-se que é a nossa tolerância; acho que é a nossa irresponsabilidade colectiva.
Quanto aos jovens de Hong Kong espero sinceramente que não haja uma tragédia um dia destes. Percebo, sinto-me irmanado com a sua luta mas não sinto que estejam preparados para o que possa vir a acontecer de mau. Estão um bocado cegos pela paixão revolucionária, que não é manifestamente ‘bom conselheiro’.

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