Memórias da Ditadura IV

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Era difícil a convivência com os professores do ‘regime’ no início dos anos 1970. Por um lado, pressentia-se que as coisas não podiam continuar da forma como estavam pois havia um fosso enorme entre o discurso situacionista de Marcello Caetano e dos seus ministros e a vontade de mudança política, de costumes e horizontes das novas gerações. Na compacta muralha pró-regime que ditava a lei na Faculdade de Direito de Lisboa recordo, com simpatia, Jorge Miranda e Freitas do Amaral pelo esforço que faziam em transmitir objectividade no direito que ensinavam, um o Direito Constitucional muito plasmado à problemática política do poder e da sua legitimidade, outro aos poderes do Estado quando em confronto com os direitos dos administrados. Não eram, partcularmente abertos aos estudantes mas eram professores severos mas justos. Dos mais conoctados com o salazarismo Soares Martinez, intragável como professor e Cavaleiro Ferreira que nunca seria meu professor tendo a cátedra do Direito Penal que se ensinava no 3.o ano. Martinez era daqueles equívocos que os regime fechados criam em termos da formatação ideológica das novas gerações. Tinha, contudo, dois assistentes notáveis Marcelo Rebelo de Sousa e  Jorge Braga de Macedo. O primeiro era já uma star pela sua extraordinária comunicabilidade, pela forma como introduzia temas que não cabiam lá muito bem no espartilho da cadeira de Economia Política. Braga de Macedo era também muito seguro, muito interessante na exposição. Acho que a minha paixão pela economia vem da influência destes dois professores que me marcaram em termos de maturação intelectual. Da ala dos liberais, Jorge Silveira que recordo com muita afabilidade e pela forma como apoiava a causa dos estudantes presos e procurava resistir à interferência diária dos ‘gorilas’ nas aulas e na vida estudantil. Uma das ‘lendas’ desse tempo diz que terá tirado a Ana Gomes do ‘aquartelamento’ dos gorilas na cave da faculdade depois de uma sessão de pancada e murros que foi aplicada à então dirigente estudantil. Lembro, também, Ferreira da Silva que seria meu colega, décadas mais tarde nos Correios de Portugal e que ministrava Direito Processual I e Ana Prata que tinha o cadeirão de Direito de Obrigações. O ano de 1974 amanheceu com greve na academia na sequência de prisões macivas de estudantes em contestação contra a incorporação militar compulsiva de vários dirigentes da academia. Nesse tempo a distinção entre as esquerdas era residual e de uma forma ou outra interviam, de acordo com o seu peso específico, nas ‘lutas’ e plataformas reivindicativas da altura.

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