Memórias da Ditadura III

Maria+José+Morgado-antes[1]saldanhagarcia

Um das imagens que mais me vem à memória quando relembro a rebelião militar tornada revolução de há 40 anos é a coragem e a valentia dos activistas estudantis, nos dois últimos anos da ditadura. E se a luta estudantil se manifestou sempre pela sua irreverência e criticismo, era preciso enorme coragem para combater, na escola, as políticas educativas de Veiga Simão, combater com força física manifestamente desigual os seus gorilas e ainda escapar aos esbirros da PIDE que infestavam as universidades. Se os capitães de Abril, com que hoje se enche tanto a boca, foram os protagonistas do golpe os estudantes, pelo menos nas grandes cidades de Lisboa e Coimbra, mostravam que não toleravam mais a irracionalidade da ditadura, a estupidez da Guerra Colonial, a política vesga do professor de direito que um dia foi chefe de governo, por falta de alternativa. As paredes pintadas de pichagens, as manifestações fugazes no 1.o de Maio, na Praça do Chile e depois no Rossio, onde se organizva uma concentração, arrancava-se em manifestação por alguns metros, desfraldando-se cartazes e gritando-se MORTE AO FASCISMO, FIM À GUERRA COLONIAL, LIBERTAÇÃO DOS ESTUDANTES PRESOS, revelavam uma geração incapaz de se render, que se batia por ideais de liberdade e democracia que eram vanguardistas, na altura. Lembro as RGA’s no átrio que antecedia o Auditório I, da Faculdade de Direito e a forma deslumbrada como ouvia os grandes oradores desse tempo: José Lamego, Garcia Pereira, Saldanha Sanches, Mizé Morgado, o casal Palhinhas, o Alberto Augusto, a Ana Gomes e alguns outros. E o alvoroço das cargas dos gorilas sobre os estudantes, empurrando todos contra as portas da faculdades para onde instintivamente se fugia. Era um tempo de coisas simples, de valores chãos, de separação entre os opositores à ditadura protagonizada pela esquerda estudantil e os coniventes com o regime: os fascistas, os colaboracionistas e os abúlicos. Entre cabeças partidas e vesgastadas nas costas (da Polícia de Choque) crescemos empurrados por um tempo de sofrimento, de desnorte e de apelo da mudança. O país seguir-nos-ia.

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